sábado, 12 de outubro de 2024

Vida vadia


A última vez em que me senti vivo. Foi num banheiro sujo. Entorpecido. Durante um intercâmbio de fluídos. Fudendo um corpo desconhecido. Era carnaval e o doce deixava o mundo mais colorido. Divertimento ou mero escapismo. Enquanto os pretos sofrem genocídio. Nosso revide será tipo um regicídio. Assassinatos políticos. Nada é verdadeiro. Tudo é permitido. Seja realista, exija o impossível. O todo é mente. O universo é mental. Eu fumei a pedra filosofal. Numa biqueira extradimensional. Sinto um mal estar social. O pessimismo e o capital. Busco refúgio na arte. E suas infinitas possibilidades. Questiono a realidade. As paredes da cidade estão cada dia mais belas. Só pixo na régua. A city é uma tela. Vagando nela divago sobre o nada. O átomo, o álcool, o vácuo, a matéria. O cosmos é uma droga psicodélica. A vida é um sonho. Eu sou o Sandman. Fazendo poesia sem assepsia. Pau no reto dessas patricinha. Um salve pá tiazinha que trabaia 30 ano e anda a pé. Consciência de classe nunca é demais, mané. Você não é afavor de cotas raciais. Porque não tem a cor dos alvos preferenciais da bala. Que nunca dá perdido na quebrada. Aqui onde o branco invasor dizimou o povo nativo. Olho pro céu. Contemplo os astros. A vida é uma puta. Bota a calcinha para o lado. Deus é incognoscível. Um mistério insondável. E quando o vazio parece intragável acendo um cigarro. Fumo um eight. 25 centavos. Vejo pretos morando nas praças. Sequestrados da mãe África onde éramos reis e rainhas. Hoje em diáspora. Ancestralidade estuprada. A deríva crianças de esperança abortada. Trepando com a morte fumando na lata. Faz um corre no busão o vendedor de bala. No sinal tem malabarista e vendedor de água. Subempregados. O entregador no pulo do gato desvia dos carros de bicicleta. É tudo escravidão moderna. Ontem Mocambos. Hoje favelas. Se todo meu ódio ao Estado pudesse ser bolado. Eu jogaria na seda e daria vários tragos. Vagando procurando diversão. Vejo mulheres pretas em situação de prostituição. Sem tempo pra revolução. Trombo a rapaziada num rolê pela quebrada. Bebemos catuaba ou pinga. Encontramos no vício a saída. O crime nos mataria. A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria. Nos enquadro da polícia branco sai, preto fica. Na rua tem que ter as mandinga. Para fazer um peão no sabadão pulava a catraca. Voltava às 6:00hs da matina. Desmaiado no fundão do busão. Vomitando até as tripa. Passando na avenida via travestis pretas que se vendiam a brancos que as comiam depois as cuspiam. Um homem chapado, largado, mendigo, enlouquecido me sorria ébrio. Invisibilizado. Imerso na miséria de seus dias. Sempre a mesma merda. Basquiat já dizia.

(PISICO)

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