quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Divina crônica


No CAPS uma mulher negra doente mental tinha uma teoria sobre Deus que me comoveu
Perder a fé nos enlouquece, meu filho, e beijou minha mão 
Quase não contive a emoção 
É preciso cultuar o ordinário 
E no meio do senso comum perceber os sábios 
Ela cortou cana até enlouquecer
O drama é viver 
Sofrer
Ela disse que é tudo um teste divino
A vida é um jogo
Eu estou me divertindo
Não vejo bicho com nada
Já vendi água na praia
Enquanto catava lata
O cosmos é Deus brincando consigo mesmo
A criação é uma masturbação
Fico me perguntando se está valendo a pena continuar vivo
E sinto que dá pra continuar se ainda há bons livros e maconha pra fumar vendo bons vídeos
Como se Deus tivesse me fodido
Eu havia enlouquecido 
Me trancaram em um hospício 
Uma viciada em crack me confessou um homicídio
O clichê dita que o tempo cicatriza todas as feridas
Só que não 
O tempo é uma ilusão da percepção
Molotov na polícia na manifestação 
Não seja pego
Não vá para prisão 
Transitando por Zonas Autônomas Temporárias 
A revolução é uma festa
Tipo um street de skate
Fumei o último beck do pedaço de cinquenta
E dei a luz a este poema
Eu fumava crack na lata 
Nas ruínas cagadas da quebrada
Enfermo de desespero adolescente 
Bebia aguardente
Já era pra mim estar morto na realidade 
Com esquizofrenia 
Na psicose do crack
Parei de comer
Pálido e raquítico 
Óbito de pedra 
Meu objetivo
Penso em tempos que não voltam
A solidão me devora agora
Vendi droga
Furtei quadrinhos num sebo
Não ligo pro hype
Tô cuspindo no mic
Fumei prensado mofado 
Da Feira do Rato

(PISICO)
 

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